“As pessoas com PPB são como as pessoas com queimaduras de terceiro grau em mais de 90% do corpo.

Sem proteção emocional, sentem agonia ao mínimo toque ou movimento.”

Marsha Linehan

Borderline: o que é?

A Perturbação de Personalidade Borderline é uma condição de saúde mental que é caracterizada por uma grande sensibilidade emocional e dificuldade na regulação emocional, especialmente em contextos de relações interpessoais. 

A PPB não é ser demasiado emocional ou instável por escolha, mas é um padrão de funcionamento intenso e reativo, que gera muito sofrimento e impacto nas relações, na identidade e no bem-estar. O termo Borderline significa linha de fronteira e é utilizado para definir esta perturbação precisamente porque a pessoa se encontra numa fronteira entre uma neurose e uma psicose. 

Este lugar onde a pessoa se encontra é extremamente inseguro e instável e a pessoa sente-se constantemente a saltar à corda de um lado para o outro. Estima-se que, apenas em Portugal, possam existir cerca de 200 mil pessoas com esta doença. Sendo que, uma a cada dez pessoas afetadas, acaba por cometer o suicídio. O manual de diagnósticos DSM-5 define a Perturbação Borderline com base em 9 critérios, dos quais pelo menos 5 precisam de estar presentes para formalizar um diagnóstico. 

Nota importante: Se tu ou alguém que conheces está a sofrer dificuldades semelhantes a estas, é importante procurar apoio junto de um profisisonal de saúde. A informação presente nesta página tem caráter exclusivamente informativo e de psicoeducação, não constituindo diagnóstico ou avaliação profissional. 

Principais Características

Medo intenso do Abandono

Uma das características mais marcantes da Perturbação Borderline é a enorme sensibilidade à possibilidade da pessoa perder alguém importante. Pequenos sinais de afastamento, como uma resposta mais fria, uma mudança de tom, uma demora na mensagem ou até um cancelamento de planos, tudo isto pode ser sentido de forma muito intensa e despertar medo, insegurança ou até mesmo desespero. Vai além do medo de ficar sozinho. É uma sensação profunda de rejeição, substituição ou até de perda de ligação.

Relações intensas e instáveis

As relações tendem a ser vividas com grande intensidade emocional. A ligação ao outro pode tornar-se muito profunda e significativa num espaço de tempo muito curto, sendo que existe uma grande necessidade de proximidade, validação e segurança emocional. Ao mesmo tempo, quando surge dor, conflito ou até um pequeno afastamento, as emoções têm tendência a mudar rapidamente, traduzindo-se em momentos de frustração, desilusão ou raiva. Estas oscilações podem tornar as relações emocionalmente desgastantes tanto para a própria pessoa como para quem a rodeia. Aqui falamos de Idealização/Desvalorização/Splitting como mecanismos automáticos de defesa.

Instabilidade da Autoimagem 

A forma como a pessoa se vê a si mesma pode mudar com grande facilidade. Num momento a pessoa pode sentir-se confiante e segura, motivada, capaz e, no momento seguinte, pode sentir-se com dúvidas, confusa, perdida ou até ter uma perceção negativa de si mesma. A identidade da pessoa também tende a modificar-se consoante as pessoas que estão à sua volta, quase como uma medida para que a pessoa seja aceite e que gostem dela. Estas oscilações afetam não só a identidade pessoal mas também os objetivos, a autoestima e a forma como a pessoa percebe as relações e o seu lugar no mundo.

Impulsividade

Em momentos de dor emocional intensa, pode haver alguma dificuldade em parar e refletir antes de agir. Isto pode levar a pessoa a tomar decisões rápidas e a ter comportamentos que depois podem gerar arrependimento ou impacto emocional. Normalmente, a impulsividade destaca-se em áreas como condução, relações sexuais, compras, gastos financeiros, etc. Estes gestos impulsivos podem ser formas de ajudar a pessoa a lidar com as suas emoções.

Instabilidade Emocional

As emoções são vividas de forma muito intensa e podem mudar rapidamente ao longo do dia. Situações que para outras pessoas podem parecer pequenas uou até mais fáceis de gerir, podem desencadear um sofrimento emocional significativo em pessoas com PPB. Sentimentos como tristeza, ansiedade, vergonha, raiva ou rejeição podem surgir como um tsunami emocional, acabando por se tornarem difíceis de tolerar e regular. Também o mesmo acontece com a felicidade e a excitação. Quando sentidas, podem virar uma euforia muito desafiante de trazer para o ponto de regulação. Muitas pessoas com PPB sentem que vivem com as emoções constantemente à flor da pele.

Sensação de Vazio

O vazio é o ponto central da PPB e é uma sensação persistente, constante, como se faltasse algo que é muito difícil de identificar. É uma sensação de buraco negro no peito. Mas um buraco negro que é tão cheio de tudo e ao mesmo tempo, tão cheio de nada. É desconexão, solidão, ausência, dificuldade, medo. Acima de tudo, o vazio é uma mistura de tudo de onde emerge um medo muito grande de ser engolido. Este vazio tende a tornar-se mais intenso em momentos de isolamento ou até de ausência de conexões e ligações significativas com os outros.

Raiva Intensa

A raiva surge de forma muito intensa, rápida e é muito desafiante de controlar, especialmente em situações em que a pessoa está em muita dor emocional, está frustrada ou até mesmo a sentir injustiça ou rejeição. Por trás da raiva está, muitas vezes, um sentimento de medo e uma sensação muito gritante de incompreensão. Na raiva intensa, a pessoa tende a ter ecplosões emocionais, pode ter comportamentos mais agressivos ao nível verbal ou até físico e são seguidos de sentimentos de culpa, vergonha e arrependimento muito significativos. Estes sentimentos que seguem uma crise de raiva, podem despertar uma nova crise ou até mesmo ideações de auto-punição, como forma de castigo pelo sofrimento que a pessoa acabou de causar nos outros.

Comportamentos Autolesivos ou Ideação Suicida

Muitas vezes, a dor emocional é gritante, não cabe no peito e é muito difícil de tolerar. Assim começam os comportamentos de autolesão, pensamentos suicidas ou até comportamentos de risco. Estes comportamentos significam que a pessoa está num sofrimento atroz e que, a todo o custo, quer livrar-se da dor emocional, muitas vezes substituindo por uma dor que seja mais tolerável, como é o caso da dor física. Estes comportamentos são utilizados para lidar muitas vezes com situações como o desespero, o vazio e a raiva. É muito importante levar estes comportamentos a sério, pois eles são o espelho direto do sofrimento e do grau de sofrimento em que a pessoa está.

Paranóia, Dissociação, Despersonalização 

Em situações de alto stress emocional, o cérebro entra em shut-down como forma de proteção automática. Por isso, surgem experiências de desconexão que podem ser muito assustadoras para quem as vive. Algumas pessoas podem sentir uma sensação muito grande de desconfiança em relação aos outros e interpretar ações ou comportamentos de forma ameaçadora ou até sentirem que estão a ser enganadas, mesmo sem que existam sinais disso. Também podem surgir episódios dissociativos e despersonalização em que a pessoa se sente desconectada das emoções e da realidade, quase como se estivesse em piloto automático ou ter a sensação de que não se reconhece, sentir-se irreal ou ver as situações como se estivesse a assistir a um filme, colando e descolando da realidade.

Abordagens terapêuticas 

A Perturbação Borderline pode beneficiar de diferentes abordagens terapêuticas, dependendo das necessidades de cada pessoa e do acompanhamento clínico disponível. 

Esta página tem caráter informativo e não substitui avaliação ou acompanhamento por profissionais de saúde. A escolha da abordagem mais adequada deve ser sempre feita em contexto clínico e de acordo com as necessidades de cada pessoa.

Abaixo encontram-se algumas das principais abordagens terapêuticas utilizadas no tratamento da Perturbação Borderline. Entre as terapias que têm maior evidência e resultados, destacam-se a Terapia Comportamental Dialética (DBT), Terapia Baseada na Mentalização, Terapia do Esquema, EMDR, Terapia Cognitivo-Comportamental, Terapia Focada na Transferência e Terapia Focada nas Emoções.

Terapia Comportamental Dialética (DBT) 

A Terapia Comportamental Dialética, mais conhecida por DBT (Dialectical Behaviour Therapy), foi desenvolvida pela Psicóloga Marsha Linehan na década de 1980, especialmente para pessoas com Perturbação Borderline e comportamentos suicidários. 

A própria Marsha Linehan revelou ter vivido o intenso sofrimento emocional e experiências associadas ao que hoje reconhecemos como Perturbação Borderline. Marsha encontrou uma dificuldade muito grande na eficácia dos tratamentos existentes na época, o que a levou a estudar e a desenvolver uma abordagem que equilibra as neecssidades totais de alguém que vive esta realidade: a validação emocional e a mudança comportamental. 

A DBT tornou-se uma das terapias mais reconhecidas e estudadas para o tratamento da PPB pois combina estratégias de aceitação emocional e o desenvolvimento de skills práticas para lidar com emoções muito intensas, impulsividade, sofrimento emocional, crises e relações interpessoais. 

Esta terapia trabalha áreas como:

  • Regulação Emocional
  • Tolerância ao stress e crise
  • Mindfulness
  • Comunicação eficaz
  • Relações interpessoais

O objetivo da DBT não é eliminar as emoções intensas mas sim ajudar as pessoas a compreendê-las, regulá-las e a responder de forma mais segura e adaptativa. O príncipio da DBT é a integração da Aceitação + Mudança (dialética).

Terapia Baseada na Mentalização

A Terapia Baseada na Mentalização está centralizada na capacidade de compreender os próprios pensamentos, emoções e comportamentos, bem como os dos outros. A capacidade de Mentalizar é precisamente a capacidade de refletir sobre o que sentimos e sobre o que poderá estar por trás das ações e reações das outras pessoas.

Muitas pessoas com Perturbação Borderline apresentam dificuldades em Mentalizar em momentos de grande intensidade emocional. Isto significa que, nestes momentos, pessoas com PPB têm dificuldade em compreender os próprios estados emocionais e interpretar de forma correta os pensamentos, emoções e intenções dos outros. 

Isto leva a mal-entendidos frequentes, reações impulsivas, medo intenso de ser rejeitado e uma grande instabilidade das relações. 

A Terapia Baseada na Mentalização procura ajudar as pessoas a:

  • Compreender melhor o que sentem 
  • Refletir antes de agir
  • Interpretar relações de forma mais adaptativa 
  • Desenvolver uma maior consciência emocional

É uma abordagem centrada nas relações e na construção de segurança emocional. 

Terapia do Esquema

A Terapia do Esquema é uma abordagem especialmente utilizada em pessoas com dificuldades emocionais persistentes e padrões relacionais bastante complexos. 

Esta terapia assenta na ideia de que experiências precoces desafiantes como rejeição, instabilidade, invalidação, abandono ou trama, podem levar ao desenvolvimento de padrões emocionais profundos a que chamam de Esquemas. 

Estes esquemas funcionam como uma forma automática de interpretar o mundo, as relações e a própria identidade, o que leva a uma influência direta nas emoções, pensamentos e comportamentos ao longo da vida. 

Na Perturbação Borderline, esta abordagem procura ajudar a:

  • Identificar padrões emocionais repetitivos 
  • Compreender a origem desses padrões
  • Trabalhar necessidades emocionais não atendidas
  • Desenvolver formas mais seguras de relação 
  • Fortalecer a autoestima, identidade e estabilidade

É uma terapia focada nas feridas emocionais e na construção de maior segurança interna. 

EMDR

O EMDR é uma abordagem muito reconhecida no tratamento do trauma psicológico e de experiências emocionalmente marcantes. 

Esta terapia surgiu a partir da observação de que determinadas formas de estimulação bilateral, como movimentos oculares, podiam ajudar o cérebro a processar memórias difíceis que permaneciam emocionalmente ainda presas. 

Embora o EMDR seja mais associado ao trauma, também pode ser muito útil em pessoas com PPB, especialmente quando existem experiências traumáticas, relações instáveis ou experiências emocionais intensas associadas ao desenvolvimento da PPB. 

O EMDR procura ajudar a:

  • Reduzir a intensidade emocional associada a memórias difíceis
  • Diminuir a hipervigilância e a reatividade 
  • Trabalhar trauma relacional 
  • Aumentar a sensação de segurança 
  • Promover maior estabilidade interna

Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC)

A Terapia Cognitivo-Comportamental é uma das abordagens mais conhecidas e utilizadas em saúde mental. Esta terapia baseia-se na ideia de que pensamentos, emoções e comportamentos estão profundamente ligados entre si. Assim, a forma como interpretamos as situações pode influencias diretamente o que sentimos e como reagimos. 

A TCC procura ajudar a pessoa a:

  • Identificar padrões de pensamento negativos ou automáticos
  • Compreender o impacto dos pensamentos nas emoções
  • Desenvolver estratégias saudáveis e adaptativas de regulação emocional 
  • Trabalhar a impulsividade e comportamentos desadaptativos 
  • Aumentar a capacidade de resolução de problemas

Embora a PPB exija abordagens mais específicas, os princípios da TCC estão presentes em várias outras terapias utilizadas no Borderline. 

Terapia Focada na Transferência 

A Terapia Focada na Transferência é uma abordagem centrada nas relações interpessoais e na forma como a pessoa vive emocionalmente essas relações. 

Muitos padrões emocionais e relacionais surgem dentro da relação terapêutica e isto permite compreender de forma mais profunda as dificuldades inerentes ao medo de abandono, insegurança, idealização, rejeição e também identidade. 

A Terapia Focada na Transferência procura ajudar a:

  • Compreender padrões relacionais repetitivos
  • Desenvolver uma visão integrada de si e dos outros 
  • Reduzir a instabilidade emocional 
  • Melhorar as relações interpessoais 
  • Fortalecer a identidade e a estabilidade 

É uma abordagem focada acima de tudo na compreensão das dinâmicas emocionais e relacionais associadas à PPB.

Terapia Focada nas Emoções

A Terapia Focada nas Emoções centra-se sobretudo na compreensão, validação e transformação das emoções. 

As emoções têm um papel fundamental na experiência humana e, muitas das dificuldades surgem não por se sentir demasiado, mas por uma profunda dificuldade em compreender, regular ou processor internamente as emoções intensas. 

Esta abordagem ajuda pessoas a desenvolver uma relação mais segura e consistente com o que estão a sentir, em vez de evitarem ou reprimirem as emoções desafiantes. 

A Terapia Focada nas emoções procura ajudar no:

  • Reconhecimento das emoções com clareza
  • Desenvolvimento da autocompaixão 
  • Tranformar padrões dolorosos 
  • Criar maior segurança emocional 
  • Compreender necessidades emocionais 

É uma abordagem que foca na experiência emocional e no desenvolvimento de uma maior ligação conisgo próprio. 

Como é viver com PPB?

Viver com Borderline significa, muitas vezes, viver com emoções muito intensas. Situações que para outras pessoas podem parecer pequenas ou passageiras, podem gerar um sofrimento emocional profundo nalguém com Borderline. 

Viver com Borderline é sentir sempre tudo e sentir sempre tudo muito. Sentir muito medo, muita insegurança, muita dificuldade e muita necessidade de ligação. 

A PPB não define o que uma pessoa é, mas define as dificuldades que ela passa. Mas a pessoa é pessoa, antes de ser doença. Com apoio adequado, compreensão e esforço pessoal, é possível desenvolver ferramentas de regulação emocional, construir relações mais segura e alcançar uma maior estabilidade e qualidade de vida. 

Como é acompanhar alguém com PPB?

Acompanhar alguém com PPB pode ser desafiante, especialmente quando existe dificuldade de compreender a intensidade das experiências vividas pela pessoa. Muitos familiares acabam por se sentir perdidos, confusos, desgastados, impotentes e com muita dificudade em ajudar sem aumentar o sofrimento. 

Por trás de reações muito intensas, existe frequentemente uma dor emocional muito profunda mas não é por saberem isso, que lidar com o familiar fica mais leve. O apoio aos familiares também é fundamental. Ter acesso a informação, psicoeducação e orientação pode ajudar a construir relações mais seguras, maior compreensão e comunicação mais saudável. 

Recuperar é possível!

Durante muito tempo acreditou-se que a PPB não tinha tratamento ou que as pessoas nunca melhorariam. É por isso que é tão importante trazermos consciencia de que a remissão dos sintomas é possível. Recuperar é possível. Não tem de ser sempre um sofrimento atroz. Com acompanhamento, suporte, relações seguras e, acima de tudo, muito autoconhecimento, resiliência e persistência, é possível construir uma vida satisfatória. 

Recuperar não significa a ausência de sofrimento ou de momentos desafiantes na vida. Significa desenvolver capacidades de regulação emocional, estabilidade interna, qualidade de vida e relações mais saudáveis. 

Existe esperança, tratamento e possibilidade real de mudança. 

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